INTENTONA GASTRONÔMICA PELA RECONSTITUIÇÃO DA IMANENTIBILIDADE SÁPIDA
Considerações preliminares
Perpassa em altivez, pela procela da quotidianidade, o anseio por uma experiência culinária que transgrida a mera subsistência. Entretanto, na era do Antropo-tecno-ceno — tempo em que a indústria alimentar comodifica até o gesto de nutrir-se —, impõe-se ao sujeito-interlocutor a dialética opressiva entre a premência temporal e a degradação simbólica do alimento. É nesse ínterim que o macarrão instantâneo emerge não como simples iguaria, mas como fenômeno a exigir hermenêutica.
Ferdinand de Saussure, ao preconizar a relação simbiótica entre significado e significante, inadvertidamente lança luz sobre o drama: o macarrão (significante) viu seu significado esvair-se na voragem mercadológica, transmutando-se em sucedâneo cuja teleologia hodierna é a mera eficiência. Sob essa perspectiva, cumpre ao agente reflexivo — aqui denominado cozinheiro-interlocutor — intentar a reconstituição da interioridade gustativa por meio de um rito que se quer libertador.
DOS INSTRUMENTOS
(OU A MATERIALIDADE COMO IMPERATIVO)
Antes de adentrar a dialética do preparo, impõe-se a articulação dos artefatos, os quais, em sua aparente banalidade, encarnam estruturas de poder:
O bloco de farinha desidratada: unidade condensada que, à maneira da monadologia leibniziana, encerra em si a potencialidade de uma totalidade, mas que, na contemporaneidade, jaz fragmentado — não raro em sua própria conformação física — como metonímia da psique coletiva.
O invólucro-sachê: microcosmo de sabores concentrados cuja violência simbólica impõe ao paladar um regime hegemônico de glutamato monossódico, silenciando as diferenças regionais em nome de uma pretensa universalidade palatável.
O recipiente térmico: espaço de mediação dialética entre o sólido e o líquido, o frio e o fervente, o sujeito e a técnica.
DO MÉTODO
(OU A DIALÉTICA DA IMERSÃO LÍQUIDA)
Primeiro movimento: A efeméride da ruptura
Opera-se a remoção da película protetora (cuja semiótica evoca as camadas de habitus em Bourdieu) e a consequente libertação do bloco farináceo de seu invólucro. Nesse ato, ressoa a intentona pela reconstituição da interioridade: o cozinheiro, ao desnudar o alimento de suas amarras industriais, assume o papel de agente transformador, ainda que tal gesto seja, por vezes, apenas performático.
Segundo movimento: A ebulição como superestrutura
Despeja-se água em estado de fervura — i.e., momento em que o líquido atinge seu ápice de agitação molecular, evidenciando a dialética termodinâmica — sobre o bloco imerso. A quantidade de água deve obedecer a uma relação simbiótica com a massa, evitando tanto o excesso (que redundaria em esvaziamento eudaimônico do caldo) quanto a escassez (que levaria à unidimensionalidade pastosa). Trata-se, aqui, de um equilíbrio que a tecnocracia dos três minutos tenta normatizar, mas que exige do sujeito-interlocutor um olhar atento às contingências.
Terceiro movimento: A incorporação dos condimentos e a violência simbólica do sachê
No intervalo de três a cinco minutos — tempo que Michael Sandel, em sua crítica à instrumentalização da razão, poderia associar à compressão capitalista da experiência —, procede-se à adição do conteúdo do sachê. Nesse gesto, trava-se um embate: de um lado, a tentação de submeter-se integralmente ao sabor pré-determinado, consolidando a hegemonia gustativa; de outro, a possibilidade de subverter o status quo mediante acréscimos heterodoxos (ovo, vegetais, proteínas) que restituem à refeição sua dimensão identitária.
Quarto movimento: A consumação (ou o suplício da efemeridade)
Após a homogeneização dos elementos — processo que, em Saussure, equivaleria à sincronia entre significante e significado —, o macarrão instantâneo atinge seu ápice fenomenológico: a comensalidade. Nesse instante, o alimento, antes fragmentado, converte-se em experiência sensível. Entretanto, como adverte a dialética bourdiana, permanece latente a tensão entre o prazer momentâneo e a consciência da condição precária que tal refeição muitas vezes significa — sobretudo quando sua escolha decorre da impotência reflexiva diante da superestrutura produtiva.
CONCLUSÃO
(OU A NECESSÁRIA REVISÃO TELEOLÓGICA)
Diante do exposto, revela-se que o preparo do macarrão instantâneo, longe de ser mero procedimento técnico, constitui um ato passível de leitura ontológica. A cada bloco desidratado que se fragmenta sob a água fervente, reflete-se a tendência contemporânea à fragmentação identitária; a cada sachê aberto, renova-se a luta entre autonomia e heteronomia; a cada garfada, consuma-se, ainda que de modo fugaz, a intentona pela reconstituição da interioridade — ainda que sob a forma do sofrer recôndito que é o saldo amargo de uma refeição solitária às 23h47.
Em suma: o perdão — ou o macarrão —, quando condicionado pela pressa e limitado pela ausência de recursos, jamais alcança sua grandiloquência plena; resta-lhe a tétrica languidez do que poderia ter sido, mas foi relegado à eficiência.
Modo de preparo:
1) Ferver água;
2) Verter sobre o macarrão;
3) Aguardar 3-5 minutos;
4) Adicionar o tempero;
5) Servir-se, preferencialmente com a consciência atormentada pela tecnocracia.*
Bom apetite — ou, como preferiria o cozinheiro-interlocutor, que a eudaimonia do instante possa, ainda que precariamente, sobrepujar a unidimensionalidade do fast-food.
Escrito com auxílio de Inteligência Artificial.
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